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Segura o meu coraçao

Texto escrito nos termos do novo acordo ortográfico.
Categoria: Literatura
Segura o meu coraçao

O som das máquinas acompanhava o longo respirar de Ana. As figuras da noite eram projectadas nos lençóis, no corpo adormecido. Sentiu-se a acordar para a realidade.

Para a vida que ficara suspensa pelo sono de umas horas, mas que prometiam mudar todo o rumo da sua vida… Os seus olhos entreabriram-se, os seus lábios sentiam o ar desinfectado do quarto do hospital, enquanto os seus dedos se agarraram ao lençol. Na sua mente passavam fracções de segundos do acidente que tivera: o telemóvel que tocou, o telefonema de Paulo, o sorriso que esboçou com o convite deste, as luzes na sua direcção, o embate do carro no seu corpo desamparado…

Tentou mover as pernas, mas não conseguiu. Sentiu uma mágoa imensa, uma avalanche de tristeza. Nunca imaginou que um dia iria acordar assim. Perguntou-se a si mesma o que iriam as pessoas dizer…

Sempre fora invejada pelo resto do mundo, pela sua beleza, pelo seu ordenado, pela sua força. Mas bastava apenas um dedo da sua mão para contar a única pessoa que não a abandonara: o único que ainda restara era Paulo. Ana não era uma pessoa fácil, a sua imagem forte e decidida afastara tudo à sua volta, inclusive os seus pais. Mas a paixão que nascera entre ela e Paulo juntara os dois há mais de oito anos. Uma paixão forte, uma chama intensa que era alimentada dia após dia com cada carícia, cada beijo, cada abraço...

Paulo entrou no quarto, devagar, pensando que Ana ainda estivesse dominada pela anestesia. Sentou-se na cadeira e ficou a olhar para ela. A sua namorada de há já oito anos estava ali deitada numa cama de hospital. Nunca pensou que a vida lhe pregasse uma partida daquelas.
Ana sentiu a mão de Paulo na sua face. A dureza da mão deste era inigualável. Tentou mover-se novamente, mas sem sucesso. Sentiu a sua face fria. Uma lágrima gélida nasceu do seu olho e percorreu o lado esquerdo da sua cara. Paulo limpou a lágrima com a sua mão e este começou a chorar no peito de Ana.

- Não posso fazer nada! Ninguém pode! Aquele carro nem te viu! Estragou as nossas vidas… Sinto-me tão impotente! – gritou Paulo, devorado pelo sofrimento de ver a sua amada naquele estado.
- Paulo, eu não te culpo! A culpa não é tua! – Ana tentou acalmá-lo. Tentou a todo o custo chegar com a sua mão à face dele, mas não conseguiu. Os seus olhos inundaram-se de lágrimas de dor.
- Eu podia fazer…! - Paulo soltou um grito e deixou-se cair no chão. Os seus olhos estavam alagados de dor e fixados no corpo dela.
Ana virou a sua cabeça para a janela. As lágrimas e os gemidos tomaram conta de si. Um tsunami de sentimentos atacou o seu coração.
Paulo continuava a chorar. Parecia paralisado. Nunca imaginou passar por um sofrimento pelo qual estava a passar. Não era um pesadelo. Era a vida real, na sua versão traidora de sonhos e proporcionadora de dor. Sentia-se a moer por dentro. Ver aquilo que estava a ver era uma imagem do inferno.

Ana virou a sua cara novamente para Paulo. Magoava-a ainda mais o sofrimento que provocara em Paulo, o homem que lhe prometera estar nos bons e maus momentos. Mas isto era o auge da dor que qualquer pessoa podia passar. Com todas as suas forças, tentou que as palavras se soltassem da sua boca.

- Paulo, por favor… - a dor era tão grande que não conseguiu falar. Soltou um grito de raiva e desespero.
Paulo aproximou-se de Ana. Os passos pesavam-lhe. Sentiu o coração bater ainda mais forte. Sentiu-se incapaz vendo as coisas passar à frente dos seus olhos sem poder fazer nada.
- Porquê? Porquê isto? – desabafou Paulo de joelhos no chão com as suas mãos na face de Ana.
- Paulo, olha-me nos olhos! – pediu Ana – Paulo, a tua vida continua…
Paulo levantou-se de repente. Bateu com a cabeça na parede gritando:
- A minha vida continua?! E a tua? Só por estares assim eu não te vou abandonar! Continuas a ser a mulher que eu amo mais do que tudo. Apenas te tenho a ti!
- E eu apenas te tenho a ti! – gritou Ana com a força da dor.
Paulo cerrou os dentes devorado pela dor e fechou os punhos.
- Paulo, eu quero pedir-te uma última coisa! – disse Ana fechando os olhos com força, na esperança de que Paulo cedesse ao seu pedido.
- Uma última coisa?! Eu não acredito no que estou a ouvir… - levou as mãos à cara.
- Eu não quero viver assim ao teu lado! Deve existir alguém neste Mundo que goste de ti e que te fará feliz, já que eu não vou conseguir… – gritou Ana fazendo eco no quarto, onde o seu choro incontrolável renasceu.

Paulo saiu do quarto a correr.

Passaram-se dias e sem Ana ver o Paulo. Arrependera-se das últimas palavras que lhe dissera. Ele não merecia o que lhe pediu. Mas não valia de nada chorar sobre o leite derramado. Telefonara-lhe vezes sem conta, mandara e-mails, mensagens, até cartas, mas nunca obtivera resposta. Apenas umas flores com uma carta com algumas linhas escritas…

Ana,

O tempo passa, mas a dor fica. É injusto o que nos aconteceu… Passei os meus dias a pensar o que fazer das nossas vidas. Ao fim de tanto tempo, descobri… És a única pessoa que me faz viver e se não estás ao meu lado, eu não quero viver…

Ana soltou um grito e sentiu uma revolta enorme. Agarrou no telemóvel, desesperada. Paulo atendeu, finalmente.

- Sabes onde estou? No nosso sítio, na Quinta da Regaleira, com uma pistola apontada para mim, pronto a disparar. Parece-me a única maneira de acabar com esta dor que não me deixa…
- Paulo, por favor, não faças isso! – Ana tentou a todo o custo impedir Paulo.
- Se não te posso ter nesta vida, espero que numa outra possamos estar juntos para sempre, sem nada que nos impeça. Não quero obstáculos no nosso caminho, apenas quero sentir e viver o nosso amor! - desabafou Paulo. Este carregou a arma.
Ana, no meio do turbilhão de sentimentos, pediu-lhe apenas:
- Espera por mim! – e, com todas as suas forças, abriu a janela do quarto. Olha para baixo e tentou sentar-se no parapeito. Sentiu uma sensação de conforto e de felicidade. - Vamos fazer isto juntos!
- Amo-te! – disseram os dois ao mesmo tempo.
Ana atirou-se da janela do quarto andar. O telemóvel seguiu na sua mão. Caiu inanimada no chão. O seu telemóvel libertou-se-lhe do aperto da sua mão. Do aparelho, apenas se ouviu uma intensa inspiração…


Rua Direita

Título: Segura o meu coraçao

Autor: Rua Direita (todos os textos)

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Comentários - Segura o meu coraçao

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Ex-Machina e a máxima: cuidado ao mexer com os robôs.

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Texto escrito nos termos do novo acordo ortográfico.
Tema: DVD Filmes
Ex-Machina e a máxima: cuidado ao mexer com os robôs.\"Rua
Este texto irá falar sobre o filme Ex_Machina, nele podem e vão ocorrer Spoillers, então se ainda não viram o filme, vejam e voltem depois para lê-lo.

Impressões iniciais:

Ponto para o filme. Já que pela sinopse baixei a expectativa ao imaginar que era apenas mais um filme de robôs com complexo de Pinóquio, mas evidentemente que é muito mais que isso.

Desde as primeiras cenas é possível perceber que o filme tem algo de especial, pois não vemos uma cena de abertura com nenhuma perseguição, explosão ou ação sem propósito, típica em filmes hollywoodianos.
Mais um ponto, pois no geral o filme prende mais nos diálogos cerebrais do que na história em si, e isso é impressionante para o primeiro filme, como diretor, de Alex Garland (também roteirista do filme). O filme se mostrou eficiente em criar um ambiente de suspense, em um enredo, aparentemente sem vilões ou perigos, que prende o espectador.

Entrando um pouco no enredo, não é difícil imaginar que tem alguma coisa errada com Nathan Bateman (Oscar Isaac), que é o criador do android Ava (Alicia Vikander), pois ele vive isolado, está trabalhando num projeto de Inteligência Artificial secreto e quando o personagem orelha, Caleb Smith (Domhnall Gleeson), é introduzido no seu ambiente, o espectador fica esperando que em algum momento ele (Nathan) se mostrará como vilão. No entanto isso ocorre de uma forma bastante interessante no filme, logo chegaremos nela.

Falando um pouco da estética do filme, ponto para ele de novo, pois evita a grande cidade (comum nos filmes de FC) como foco e se concentra mais na casa de Nathan, que fica nas montanhas cercadas de florestas e bastante isolado. Logo de cara já é possível perceber que a estética foi pensada para ser lembrada, e não apenas um detalhe no filme. A pesar do ambiente ser isolado era preciso demonstras que os personagens estão em um mundo modernizado, por isso o cineasta opta por ousar na arquitetura da casa de Nathan.

A casa é nesses moldes novos onde a construção se mistura com o ambiente envolta. Usando artifícios como espelhos, muitas paredes de vidro, estruturas de madeira e rochas, dando a impressão de camuflagem para a mesma, coisa que os ambientalistas julgam favorável à natureza. Por dentro se pode ver de forma realista como podem ser as smart-house, não tenho certeza se o termo existe, mas cabe nesse exemplo. As paredes internas são cobertas com fibra ótica e trocam de cor, um efeito que além de estético ajuda a criar climas de suspense, pois há momentos onde ocorrem quedas de energia, então fica tudo vermelho e trancado.

O papel de Caleb á ajudar Nathan a testar a IA de AVA, mas com o desenrolar da história Nathan revela que o verdadeiro teste está em saber se Ava é capaz de “usar”, ou “se aproveitar” de Caleb, que se demonstra ser uma pessoa boa.

Caleb é o típico nerd introvertido, programador, sem amigos, sem família e sem namorada. Nathan também representa a evolução do nerd. O nerd nos dias de hoje. Por fora o cara é careca, barbudão com uns traços orientais (traços indianos, pois a Índia também fica no Oriente), bebê bastante e ao mesmo tempo malha e mantém uma dieta saudável pra compensar. E por dentro é um gênio da programação que criou, o google, o BlueBook, que é um sistema de busca muito eficiente.

Destaque para um diálogo sobre o BlueBook, onde Nathan fala para Caleb:
“Sabe, meus concorrentes estavam tão obcecados em sugar e ganhar dinheiro por meio de compras e mídia social. Achavam que ferramenta de pesquisa mapeava O QUE as pessoas pensavam. Mas na verdade eles eram um mapa de COMO as pessoas pensavam”.

Impulso. Resposta. Fluido. Imperfeição. Padronização. Caótico.

A questão filosófica vai além disso esbarrando no conceito de “vontade de potência”, de Nietzche, mas sobre isso não irei falar aqui, pois já há textos muito bons por aí.

Tem outra coisa que o filme me lembrou, que eu não sei se é referência ou se foi ocasional, mas o local onde Ava está presa e a forma como ela fica deitada num divã, e questiona se Caleb a observa por detrás das câmeras, lembra o filme “A pele que habito” de Almodóvar, um outro filme excelente que algum dia falarei por aqui.

Talvez seja uma versão “O endoesqueleto de metal e silicone que habito”, ou “O cérebro positrônico azul que habito”, mesmo assim não podia deixar de citar a cena por que é muito interessante.

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Jhon Erik Voese

Título:Ex-Machina e a máxima: cuidado ao mexer com os robôs.

Autor:Jhon Erik Voese(todos os textos)

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Comentários

  • Suassuna 11-09-2015 às 02:03:47

    Gostei do texto, irei conferir o filme.

    ¬ Responder
  • Jhon Erik VoeseJhon Erik Voese

    15-09-2015 às 15:51:02

    Que bom, obrigado! Espero que goste do filme também!

    ¬ Responder

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